segunda-feira, 24 de setembro de 2007

September the 23rd

Após duas semanas hospedado no Witworth Building, um prédio para acomodação temporária na Loughborough University, estou empacotando minhas coisas para me mudar para o David Collett Hall, onde ficarei até o final da minha permanência aqui na universidade. Amanhã, segunda-feira, dia 24, me mudo para o DC Hall, finalmente. Coloquei algumas fotos do quarto e da vista que tinha hospedado aqui no quarto 48 do Witworth Building:





Nesta foto logo acima temos um detalhe um pouco incômodo, que os de bons olhos talvez conseguir notar, apesar da pouca resolução que esse blog me obriga a usar: bem ao fundo seguindo a linha do horizonte, na esquerda, é possível ver duas grandes torres expelindo vapores claros. São torres de resfriamento de uma usina nuclear situada a menos de uma hora de viagem da cidade. Mais um destes detalhes que nos faz pensar na nossa responsabilidade, ainda mais no meu caso, fazendo este curso em energias renováveis.




Durante o tempo que fiquei por aqui, conheci melhor a universidade, a cidade, o ritmo de vida, o espírito geral das pessoas por essas bandas e também conheci bastante gente nova. Fiquei realmente impressionado com a quantidade de estrangeiros na Universidade (são aproximadamente 3000 alunos estrangeiros, ou seja, um sétimo de todos os alunos do campus, valor muito superior ao da USP), principalmente com o número de chineses que estão por aqui. Tem tanto chinês que na hora do almoço algumas vezes me questiono se vim parar em Loughborough ou Hong Kong: escuto mais chinês que inglês enquanto como! Mas tenho ciência de que isso é temporário, visto que os primeiros alunos a chegar são normalmente os estrangeiros, inclusive porque muitos deles acabam fazendo o curso preparatório de inglês antes do início das aulas, o que é o caso da maioria dos chineses que mencionei. Esta semana já apareceram mais ingleses nos refeitórios. Por falar nos refeitórios, que beleza eles são. Normalmente, você escolhe entre dois ou três tipos de prato principal quente, sendo um sempre para vegetarianos, pode se servir livremente de acompanhamentos quentes (como legumes cozidos, arroz ou batatas assadas) e saladas (estou comendo tomate e alface americana todo dia! Adoro isso!), pegar uma sobremesa de seu agrado (entre frutas, iogurtes de diversos sabores com pedaços de frutas, sendo o meu preferido o de morango, e ainda doces variados, normalmente tortas ou bolos) e ainda tomar um tradicional chá ao término da refeição. Ou seja, deixa o nosso bandex no chinelo, hehehe.

Até agora, adorei ter o meu espaço e ter de cuidar das minhas coisas por conta própria. Aprendi importantes lições, cabendo ressaltar algumas: confie no seu despertador todo dia, ou você se lasca e perde o café da manhã; vá dormir cedo ou não adianta confiar no despertador, pois você não acorda; não tenha preguiça de caminhar, pois é com as pernas que se vai ao longe; organize muito bem o seu tempo, pois, tendo que cuidar de tudo sozinho, o tempo passa incrivelmente rápido; finalmente, lavar roupas é um momento de grande valor cultural: jogue as roupas sujas na máquina e se debruce sobre um bom livro, espere a máquina fazer sua parte e depois jogue a roupa limpa e molhada na secadora, voltando para sua leitura enquanto espera. Vais ganhar pelo menos uma hora de cultura semanal nessa brincadeira, não é ótimo?

No geral, estou muito contente aqui. Agora estou começando a ficar ansioso para que as atividades normais se iniciem, sendo que esta semana vou aproveitar para checar a possibilidade de fazer aulas de piano, bem como provar as aulas de arqueirismo do Loughborough’s University Archery Club. No tempo livre, tenho estudado e me adiantado para o Mestrado. Já consegui bastante informação básica do curso e estou começando a entender aos poucos as complexidades envolvidas no uso de Energias Renováveis em redes isoladas e redes compartilhadas de energia. Também fiquei muito contente de saber que a área de Energia Fotovoltaica, meu principal foco de interesse, é visto como uma das grandes oportunidades do futuro e recebe considerável apoio governamental e privado em sua pesquisa e desenvolvimento. Excelentes indícios de um crescimento promissor para o setor e para o uso de energia solar, sendo mencionados constantemente os países em desenvolvimento como alvos de aplicações variadas, principalmente as redes isoladas para pequenas comunidades rurais. Por sinal, aqui vai um dado para vocês refletirem a respeito: mais de dois bilhões de pessoas não tem acesso a eletricidade. Realmente assustador este número, pensando em todas as melhorias de qualidade de vida que a eletricidade pode proporcionar, tanto no que diz respeito às necessidades básicas, como ter uma geladeira para armazenar alimentos, quanto no que diz respeito a conforto e segurança, como ter iluminação pública durante a noite e poder trabalhar depois de escurecer sem precisar da luz insuficiente de uma vela ou lamparina de querosene. Como escrevi no meu MSN, informem-se, reflitam e atuem. Depende também de nós mudar este quadro.

Por hoje é isso ai. Termino apenas me desculpando pela demora de escrever aqui e indicando meu esforço para escrever com mais freqüência daqui para frente, certo? Oká? All right?

Então tá bom!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Chapter I – Loughborough’s Saga Begins

September the 04th

Saímos de São Paulo, em um vôo da TAM, às 24:00 aproximadamente.


September the 05th

Chegamos ao aeroporto de Heathrow, em Londres, às 15:45 (horário local, ou seja, com fuso de +4 horas em relação ao de São Paulo). Antes da minha liberação para entrada no país, foi requisitada a obtenção de um exame de raios X de pulmão, procedimento padrão realizado no centro de saúde do próprio aeroporto. Seguimos de lá, de metrô, até a estação ferroviária de St. Pancras, aonde pegamos um trem diretamente para a pequena cidade de Loughborough, localizada em East Midlands, região central da Inglaterra, que saiu precisamente no horário previsto de partida, 19:30. No trajeto para a pequena cidade fomos surpreendidos por um pedido inesperado: teríamos de trocar de vagão, nos alocando entre os quatro primeiros vagões do trem, visto que eram os únicos que cabiam na reduzida plataforma da nossa cidade destino. Nossa chegada a Loughborough procedeu-se às 21:00 aproximadamente, seguindo de táxi até nosso hotel, o Forest Rise Hotel (5 libras).

Dentro do quarto dividido por nós três, havia uma pia que ficava fora do minúsculo banheiro (onde só se encontrava a privada). Mas e o chuveiro? Oras, mas que pergunta mais óbvia: estava dentro do quarto, em um pequeno metro quadrado coberto por azulejos, próximo às camas! Difícil de entender? Segue uma FOTO explicativa.

Exaustos das quase 20 horas de pura viagem, fomos descansar.


September the 6th

No dia seguinte, acordamos cedo animados pelas novidades que nos esperavam. De manhã, aproveitamos um maravilhoso café da manhã, com uma infinidade de opções de cereais e frutas, algumas variedades de suco, um tradicionalíssimo chá inglês (avermelhado e muito saboroso) e ousamos provar o tradicional “british breakfast”, composto por ovos fritos, lingüiça regional frita, morcela (lingüiça de sangue, arg!), baked beans, bacon frito, cogumelos cozidos, tomate assado e uma fatia de pão frito. Basicamente, uma montanha de óleo e fritura! Mesmo assim, uma experiência bastante interessante, mas bem pesada para o que chamamos de café da manhã. A propósito, o breakfast é uma das refeições mais reforçadas dos ingleses, com uma carga bastante alta de proteínas, gorduras e carboidratos. Normalmente o almoço inglês é bem mais leve, composto de apenas um sanduíche ou fatia de torta salgada e alguma bebida.

Caminhamos até a Loughborough University, onde já pudemos vislumbrar o clima delicioso do campus. Com a ajuda do mapa que recebi junto com a correspondência da universidade, encontramos o Student Enquiries Service, no prédio Administration 2, onde tivemos de aguardar alguns poucos minutos até a abertura do guichê de informações. Quem nos recebeu foi Don, um funcionário muito atencioso, que me auxiliou com os primeiros passos burocráticos. Depois de montar minha ficha para o recebimento do meu Student ID Card (o equivalente à carteirinha da USP, mas com mais funções embutidas, como o aluguel de livros na biblioteca do campus), Don sugeriu que eu cuidasse da minha acomodação o quanto antes e, seguindo seus conselhos, lá fui eu atrás da próxima etapa burocrática da minha jornada. Segui até o Student Accommodation Service, localizado no prédio Administration 1, onde fui atendido pela animada e divertida Terry, uma senhora de aproximadamente 60 anos que trabalhou duro buscando a melhor opção de acomodação para a minha situação e o meu curso. Aparentemente o trabalho dela foi fenomenal, visto que ela conseguiu me alocar em um dos Halls da universidade (o que costuma ser muito difícil depois do início de Setembro), o David Colletts Hall, onde terei um quarto individual com pia, escrivaninha, cama e armário (o banheiro é dividido com mais 4 ou 5 pessoas) três fartas refeições completas ao dia, em um total de 19 refeições semanais inclusas (2 refeições por dia no final de semana). Será que dessa vez os ingleses vão conseguir a façanha de me engordar? Para melhorar a situação, a Terry me colocou justamente no Hall onde o Warden (um tipo de zelador voluntário do Hall, que garante o bom funcionamento do Hall, um ambiente adequado, bem como auxilia os novatos) é exatamente um membro do CREST, o grupo de pesquisa que coordena meu mestrado. Um viva para a Terry!

No entanto, os Halls só aceitam os estudantes da universidade a partir do dia 26 de Setembro, uma semana antes do início das aulas. Como eu estava chegando com mais antecedência, tive de reservar uma acomodação temporária em outro prédio da universidade, onde ficam disponíveis quartos durante o período de férias acadêmicas (75 pounds por semana, com roupa de cama inclusa).

Em seguida, passei pelo Medical Centre da universidade, onde fiz o meu cadastro caso precise utilizar de algum serviço de saúde do país. Se isto acontecer, eu tenho cobertura gratuita pelo NHS (National Health Service), ou seja, o equivalente ao SUS brasileiro, mas nos padrões de primeiro mundo.

Passamos, então, no Electronic and Electrical Engineering Department, o departamento sede do CREST. Conversei com o pessoal da recepção, que pediu para eu aguardar pela Julie Allen, secretária geral do meu mestrado. Ela explicou que um dos professores do curso teria o prazer de me receber, mas que eu teria de aguardar o término de uma reunião na qual ele se encontrava, o que demoraria algo em torno de 15 minutos. Julie ainda sugeriu que aproveitássemos para tomar um chá e retornar em alguns minutos para encontrar o tal professor. Seguimos o conselho dela e descemos até a lanchonete do departamento, que estava com uma fila bem grande. Depois de certa espera, sentamos para comer os sanduíches que compramos. Enquanto comíamos, reparei que certo britânico não tirava os olhos da nossa mesa. Passados poucos minutos, o tal homem veio até nós e se apresentou: era o Prof. Dr. Richard Blanchard, o membro do CREST que nos receberia naquele dia. Ele explicou que resolveu descer até nós quando soube que estaríamos comendo algo. Muito gentil, ele conversou conosco enquanto comíamos e depois nos levou até sua sala, onde aprofundamos a conversa e tive momentos para perguntas mais específicas sobre o curso.

Em seguida, conversei com Alexia, uma das pessoas que cuida da recepção de alunos internacionais, que me explicou como funcionava o registro na polícia que eu deveria fazer a seguir (obrigatório para todos os brasileiros com visto no Reino Unido).

Resolvidas estas questões, seguimos para o centro da cidade, onde compramos um adaptador para a tomada britânica (que exige 3 pinos grossos e retangulares, dispostos em formato triangular, bem diferentes dos que utilizamos no Brasil), refrescamo-nos com um pint de Guinness no pub chamado The Phantom (obs: é terminantemente proibido fumar em pubs aqui no Reino Unido. Aha!) e jantamos no restaurante indiano Samir’s, onde o garçom ficou encantado com o fato de sermos brasileiros.

A noite caiu e, cansados pelo dia longo, seguimos a pé para nosso hotel, onde despencamos na cama, depois de um banho com o chuveiro devidamente arrumado.


September the 7th

Depois de um belo chá da manhã, já que abandonei completamente o hábito de tomar café, caminhamos até o centro da cidade, telefonamos para o Brasil, compramos um cartão telefônico, trocamos um adaptador estragado. Seguimos a pé para a universidade e almoçamos em um dos restaurantes da rede Imago, que cuida da alimentação e acomodação dentro do campus. O almoço foi gostoso, com muitas opções de alimentação, incluindo fartas opções de saladas, sopas, pratos principais e sobremesas (5 libras por pessoa). Seguimos para a biblioteca da universidade, onde testamos meu acesso à internet e aproveitamos para colocar algumas coisas em dia pela net. Meu pai aproveitou para reservar e verificar detalhes sobre o congresso do qual ele participará em Warwick.

Depois disso, jantamos cedo em um pub chamado “The moon and the bell”, que servia um delicioso fish and chips, onde aproveitamos para provar diferentes ales do Reino Unido. Após o jantar, voltamos ao hotel para descansar um pouco mais cedo para o dia seguinte.


September the 8th

Acordamos cedo, tomamos café da manhã no hotel e caminhamos até a estação ferroviária da cidade, sem grandes esforços (a cidade é realmente pequenina). Na estação, compramos passagens de ida e volta para a cidade de Nottingham, onde passaríamos o dia conhecendo o castelo e os locais turísticos mais famosos de lá. Como alguns devem saber, Nottingham é famosa pela lenda de Robin Hood, o herói fora da lei que roubava de ricos para dar aos pobres. Tal lenda vive há mais de 700 anos, tendo sofrido diversas alterações ao longo do tempo. Pelo que nos foi explicado, existe uma base histórica fundamentando a lenda de Robin Hood, baseada em um certo Robert, filho de um nobre assassinado, que teve de fugir para as florestas das proximidades (Sherwood Forest) e viver em exílio durante anos. Lenda ou realidade? Difícil dizer...

Conhecemos o castelo, que depois de sofrer diversas reformas e transformações acabou por se tornar uma mansão e, finalmente, um museu, como permanece até hoje. Pudemos fazer um tour guiado especial que nos levou pelos túneis secretos do castelo, que seguem do topo da rocha onde ele está localizado até sua base, diversos metros abaixo. Nosso guia era um inglês de aproximadamente 55 anos de idade, bastante engraçado e animado.

Ainda em Nottingham, tivemos a oportunidade de conhecer um local tremendamente tradicional da cidade e da Inglaterra como um todo: o pub mais antigo do Reino Unido, de nome “Ye Olde Trip to Jerusalem”, fundado em 1189 e em funcionamento desde tal data até hoje! Uma verdadeira raridade, o pub é cavado no meio da colina do castelo de Nottingham e serve um ale de produção própria, além de uma bela coleção de cervejas e ales de pequenas cervejarias e das mais famosas da região. Dentro da taverna havia uma coleção de notas dos mais diversos países do mundo. Fiz questão de deixar a minha contribuição: uma nota de dois reais com a inscrição “Cheers from Brazil! Rodrigo Sauaia 08/09/2007”. O pessoal do pub era muito atencioso e além das bebidas e comidas o ambiente possuía diversas placas explicativas sobre a história do local e algumas de suas tradições. Dentre elas, um jogo muito interessante onde você precisa balançar uma argola presa por uma corda ao teto para que ela se prenda em um chifre localizado em uma das paredes de rocha do pub. Talvez a tradição mais misteriosa do pub seja a do “Old Galleon”, uma maquete de um galeão que se encontra totalmente encardida e cheia de poeira e sujeira. Uma lenda conta que tal maquete foi dada de presente por um forasteiro desconhecido e que ela carrega consigo uma horrenda maldição: qualquer um que se puser a limpar o galeão será alvo de uma morte horrenda em poucos dias. Diz-se que os três últimos desafortunados que tentaram tal façanha morreram misteriosamente em menos de uma semana de realizada a tarefa. Para evitar fatalidades desnecessárias, o “Old Galleon” é mantido sujo e preservado dentro de uma cúpula de vidro selada. Assim ninguém se machuca...

Depois destas visitas, fomos ao “Tales of Robin Hood”, um tipo de apresentação temática sobre a lenda do arqueiro mais habilidoso da Inglaterra. Apesar de ter bastante informação interessante, o local estava um pouco abandonado e era meio infantil demais, portanto não aconselho a pagarem a entrada (que, por sinal, não é barata).

Voltamos de trem para Loughborough e a pé para o hotel, onde fizemos um chá e comemos cookies, castanhas e frutas desidratadas como um leve lanche da noite. Mais um banho quentinho e deitamos para descansar do longo dia.

September the 9th

Mais um belo café da manhã, dessa vez provando morangos e blackcurrent (uma frutinha silvestre que lembra framboesa) locais, e partimos para a cidade. Depois de passar pelo Queen’s Park, um parque pequenino, mas muito bem cuidado. Lá existe o memorial da primeira guerra mundial, com mensagens para os cidadãos de Loughborough que defenderam seu país e perderam a vida durante a guerra; um coreto, onde aos domingos pode-se ouvir a banda da cidade tocar e o museu local, com exposições variadas. Perto do parque passamos próximo à biblioteca pública, pequena, mas bem cuidada (pelo menos por fora, pois não entramos nela). Entramos em uma loja de roupas, onde nos surpreendemos com a descoberta de que é barato comprar roupas na Inglaterra. Depois de meus pais aproveitarem para algumas comprinhas, nos dirigimos ao supermercado, onde compramos alguns itens de primeira necessidade para quando eu estivesse por conta própria.

Em seguida, passamos novamente no pub “The moon and the bell”, onde almoçamos, conversamos e assistimos o final da corrida de fórmula 1 (por causa do fuso horário, ela passa aqui no período da tarde, enquanto temos o costume de assisti-la durante a manhã no Brasil) e um pedaço de um jogo de rugby.

Falamos com a Jujuba e voltamos para o hotel, onde continuei a escrever este diário, enquanto meus pais cochilavam um pouco.